terça-feira, 19 de julho de 2011

Seria a Origem naturalista da Vida uma teoria válida?

                                                   Voltar para [Índice do Blog] - [Início


Materialistas assumem que a vida surgiu espontaneamente no meio aquatico da Terra primitiva - água que não continha nenhuma vida, apenas materiais e substâncias químicas usadas pelos seres vivos. O microbiologista Michael Denton, Ph.D, M.D, diz:

''Considerando o modo como a sopa pré-biótica é referida em tantas discussões sobre a origem da vida como uma realidade já estabelecida, é de certo modo um choque saber que não há absolutamente nenhuma evidência positiva de sua existência'' [1]

Porque o oxigênio na atmosfera destruiria toda possibilidade de vida surgindo por processos naturais, os materialistas erroneamente assumem que a atmosfera não possuia oxigênio.

Mas, não há prova científica de que a Terra alguma vez tenha tido uma atmosfera sem oxigênio como os Evolucionistas requerem. Rochas mais antigas da Terra contem evidências de terem sido formadas em uma atmosfera com oxigênio. Evidências de oxigênio livre têm sido encontradas em rochas supostamente 300 milhões de anos mais velhas que as primeiras células vivas.[2][3][4]

Eles também assumiam que a atmosfera continha certos ingredientes necessários, incluindo amônia, nitrogênio, hidrogênio, vapor de água e metano. Entretanto, é bem sabido que a mistura desses gases não cria vida. Então, materialistas teorizaram que algo mais seria necessário - talvez descarga de energia.

Várias fontes de energia têm sido testadas na tentativa de criar vida a partir de diferentes misturas químicas. Elas incluem correntes elétricas, faíscas elétricas, radiação ultravioleta, ondas de choque e compostos químicos que emitemintensa energia. Nenhuma produziu os resultados necessários para criar vida.

Há outros problemas bem maiores para a produção da vida. Há numerosas razões pelas quais os aminoacidos se desintegrariam, ou antes, nunca se formariam. Três cientistas, Thaxton, Bradley e Olsen, dizem sobre isso:

''Na atmosfera e nas várias bacias hidográficas da terra primitiva, muitas interações destrutivas teriam reduzido tão vastamente, se não consumido totalmente, as substâncias químicas precursoras essenciais, que as taxas de evolução química seria insignificantes. A sopa teria sido muito diluída por polimerização direta para ocorrer. Mesmo pequenos tanques locais para a concentração dos ingredientes da sopa teriam encontrado o mesmo problema, Além disso, nenhuma evidência geológica indica que uma sopa orgânica, nem mesmo uma pequena poça orgânica, alguma vez tenha existido nesse planeta. Está ficando claro que seja como for que a vida começou na terra, a noção geralmente aceita de que a vida emergiu de uma sopa oceânica de substâncias químicas orgânicas é a hipótese mais inverossimil. Nós devemos, portanto, com imparcialidade chamar esse cenário de ''mito da sopa pré-biótica'' [5]

Além do mais, a vida requer muito mais do que aminoácidos. Uma necessidade é a proteína. Outra é o código do DNA.

Um químico calculou a probabilidade contra a combinação de aminoácidos para formar as proteínas necessárias por meios indiretos. Ele estimou uma probabilidade de mais de 10 elevado a 67 para 1 contra a formação de mesmo uma pequena proteína - pelo tempo e o acaso, em uma mistura ideal de substâncias químicas, em uma atmosfera ideal e fornecido o tempo de 100 bilhões de anos (uma idade de 10 a 20 vezes maior do que a suposta idade da Terra). [6]

Matemáticos geralmente concordam que, estatisticamente, qualquer probabilidade além de 1 em 10 elevado a 50 tem ZERO chance de alguma vez ocorrer. [7]

O matemático Emil Borel concorda que as leis de probabilidade demonstram que: ''Eventos cujas probabilidades são extremamente pequenas nunca ocorrem''.[8]

Vários pesquisadores altamente qualificados pensam ter provado cientificamente, além de qalquer dúvida, que as proteínas necessárias para a vida nunca poderiam ter vindo a existir por acaso ou por qualquer processo natural. O evolucionista Paul Erbrich diz:

''A probabilidade, contudo, da evolução convergentes de duas proteínas com aproximadamente a mesma estrutura e função é muito baixa para ser plausível, mesmo quando todas as possíveis circunstâncias que parecem aumentar a possibilidade de tal convergência estão presentes. Se é assim, então a plausibilidade de uma evolução randômica de duas ou mais proteínas diferentes, mas funcionalmente relacionadas, parece grandemente maior''. [9]

Sendo assim, a probabilidade da formação de proteínas no cenário naturalista proposto pelos evolucionistas é zero. Diante disso, o que o químico, Dr. Wilder Smith conclui ser a afirmação final sobre o assunto?

''O fato é que enfaticamente a vida não poderia ter surgido espontaneamente em uma sopa primitiva desse tipo''. [10]

Continua...


______________________________________
Referências

[1] Michael Denton, Evolution: A Theory in Crisis, 1986, p. 261.
[2] Harry Clemmey e Nick Badham, ''Oxygen in the Precambrian Atmosphere: An Evaluation of the Geological Evidence'', Geology, VOL 10, (March 1982), p. 141.
[3] ''Smaller Planets Began with Oxidized Atmospheres'', New Scientist, Vol 87, nº 1209 (July 10, 1980), p 112.
[4] John Gribbin, ''Carbon Dioxidem Ammonia - and Life'', New Scientist, Vol 94, nº 1305 (May 13, 1982), pp. 413-416.
[5] Charles B. Thaxton, The Mistery of Life Origin: Reassenssing Current Theories (New York: Philosophical Library, 1984), p. 66.
[6] A.J.White, ''Uniformirarianism, Probability and Evolution'', Creation Research Society Quarterly, Vol.8, Nº 1 (June 1972), pp. 32-37.
[7] I.L.Cohen, Darwin Was Wrong - A Study in Probabilities (P.O.Box 231, Greenvale, New York
11548: New Research Publications, Inc., 1984), p. 205.
[8] Emil Borel, Elements of the Theory of Probability (New Jersey: Prentice-Hall, 1965),
p.57
[9] Paul Erbrich, ''On the Probability of the Emergence of a Protein with a Particular Function'', Acta Biotheoretica, Vol 34 (1985), pp.53-80
[10] Arthur E. Wilder-Smith in Willen J.J. Glashouwer e Paul S. Taylor, ''The Origin of Life, 1983.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Por que não algum dos deuses politeístas?

                                                    Voltar para [Índice do Blog] - [Início]
                                                                                                  
                                                                                                     Agradecimentos a Snowball

Nessa técnica, o adversário lhe perguntará o motivo pelo qual optamos pelo monoteísmo ao invés da crença em alguma divindade politeísta. A pergunta pode vir mais ou menos assim:

  • Por que você acredita em Deus e não em Thor, Osíris, Rá e Afrodite?”

Embore exista uma “falha” na pergunta (é uma pergunta pessoal – “Por que você acredita…”) que não me permita responder por todos, vou, obviamente, argumentar no sentido de como eu responderia a tal questão.

Antes de tudo, por trás do nome, quem é “Deus”? Eu o defino como um ser pessoal, transcendental e necessário. Se ele é transcendental, então não tem atributos e características tipicamente físicas (como ter uma cabeça de falcão, barba vermelha ou usar uma cabeça de falcão); se ele é necessário em sua própria existência, então não pode ter passado a existir (como surgir do sêmen jogado no mar – você vai entender isso daqui a pouco, se ainda não entendeu).

Nós temos argumentos que INDICAM a existência de um ser com ESSAS CARACTERÍSTICAS de ser pessoal, transcendental e necessário (e não outras). São argumentos como o da Causa Primária, Cosmológico Kalam, o da Contingência, Moral, Ontológico, etc. Eu os considero racionais e com apelo; portanto, eu posso me justificar neles para acreditar em Deus.

Agora que já sabemos o que eu entendo por Deus e com que base posso justificar minha crença nele, vamos nos perguntar: e quem são Thor, Osíris, Rá e Afrodite?

Arranjei as definições (de forma bem resumida, só para passar a idéia) desses quatro deuses para a análise. Por exemplo:
  • Thor
Thor ou Tor (nórdico antigo: Þórr, inglês antigo: Þunor, alto alemão antigo: Donar) é o mais forte dentre deuses e homens, é um deus de cabelos vermelhos e barba, de grande estatura, representando a força da natureza (trovão) no paganismo germânico, disparando raios com o seu poderoso martelo Mjolnir. Ele é o filho de Odin, o deus supremo de Asgard, e de Jord (Fjorgyn) a deusa de Midgard (a Terra). Durante o Ragnarök, Thor matará e será morto por Jörmungandr. Thor também é chamado de Ásaþórr, Ökuþórr, Hlórriði e Véurr.
  • Osíris
Osíris é, miticamente, a primeira de todas as múmias, dando assim justificativa à prática do embalsamamento. Ísis, sua esposa-irmã, opõe-se à catástrofe da sua morte com a prática da magia, o recurso da mumificação e a milagrosa concepção de Hórus.
Rá ou Ré é a principal divindade da mitologia egipcía, Rá é um deus com cabeça de falcão conhecido como o deus do sol, pela impôrtancia da luz na produção dos alimentos.
  • Afrodite
Afrodite (em grego, Αφροδίτη) era a deusa grega da beleza, do amor e da procriação. Possuía um cinturão, onde estavam todos os seus atrativos, que, certa vez, a deusa Hera, durante a Guerra de Tróia, pediu emprestado para encantar Zeus e favorecer os gregos. De acordo com o mito teogônico mais aceito, Afrodite nasceu quando Urano (pai dos titãs) foi castrado por seu filho Cronos, que atirou seus testículos ao mar, então o semêm de Urano caiu sobre o mar e formou ondas chamadas de (aphros), e desse fenomeno nasceu Aphroditê ("espuma do mar"), que foi levada por Zéfiro para Chipre. (…) Como vingança e punição, Zeus fê-la casar-se com Hefesto, (segundo Homero, Afrodite e Hefesto se amavam, mas pela falta de atenção, Afrodite começou a trair o marido para melhor valorizá-la) que usou toda sua perícia para cobri-la com as melhores jóias do mundo, inclusive um cinto mágico do mais fino ouro, entrelaçado com filigranas mágicas. Isso não foi muito sábio de sua parte, uma vez que quando Afrodite usava esse cinto mágico, ninguém conseguia resistir a seus encantos.
Podemos ver quais as características desses deuses; são todos seres com características físicas limitadas (destacadas nos trechos – como ter barba, cabeça de falcão, ter uma esposa-irmã, etc) e que não são necessários (Afrodite, por exemplo nasceu do sêmen de Urano jogado no mar – definição que seria simplesmente inconcebível para Deus!).

Essas quatro divindades são diferentes da divindade Deus? Acho que está claro que, conceitualmente, são. Assim, os argumentos para Deus não podem se aplicar a eles.

Mas que argumentos nós temos para a existência de uma “primeira múmia” ou para um sujeito com um martelo mágico que controla ou dispara os raios? Bom, eu não ouvi nenhum.
Então, esta aí a diferença: Deus é um ser transcendental, pessoal e necessário para qual temos argumentos a favor. Já os outros são seres contingentes, físicos e “arbitrários” para qual NÃO temos argumentos a favor.

Logo, temos argumentos para acreditar na existência de Deus, que é um ser diferente da existência de Thor, Osíris, Rá e Afrodite, que precisariam de argumentos próprios e que, na verdade, parece que não temos. Deste modo, eu posso dizer por qual motivo dou preferência a Deus aos outros seres diferentes dele.

A conversa pode continuar assim: “Mas eu discordo dessa visão. Eu acredito que Thor não é um ser físico com um martelo. Na minha opinião, Thor é o nome de um ser que está além do nosso Universo e que é necessário em sua existência.”

Se você passar a definir Thor como transcendente e necessário, então, tudo bem, nós passamos a falar do MESMO ser! Um ser não se define pelo nome de fantasia que damos a ele – mas pelas características conceituais objetivas de quem se fala. Se você igualou a descrição de Thor à descrição de Deus, então agora estamos falando da mesma coisa, mas apenas com nomes diferentes – sendo o nome um detalhe irrelevante para a discussão”.

Como eu falei naquele mesmo artigo:
A moral da história é: por mais que se queria dar algum outro nome besta qualquer, como Monstro do Espaguete Voador, Mamãe Ganso ou Unicórnio Rosa Invisível, se estivermos falando de seres com as MESMAS características OBJETIVAS… então estamos falando… do mesmo ser!
Talvez ele ainda tente no final: “Ok, mas mesmo assim pode ser tanto Allah quanto Deus. E agora?”

Essa é a técnica “Qual Deus?”. (sim, as técnicas vão se relacionando, pois quando pegamos uma eles trocam para outra – esse é o motivo das referências). “Deus”, “Allah” e “Javé” são três palavras diferentes que se referem ao MESMO ser. São todos o que se comumente se entende por “Deus” (nome próprio) – Allah é até a palavra que os arábes usam para Deus, como “God” em inglês ou “Dios” em espanhol. Então não há diferença alguma entre eles.

E, não, o fato de existirem três revelações (ou mais) diferentes não o fazem serem “deuses” diferentes. Nós temos que fazer duas perguntas para qualquer religião:
  • (a) A divindade de qual essa religião fala existe?
  • (b) Se existe, a forma que ela se revelou/a forma de se fazer o “religamento” com ela, tal qual alegado por essa religião, é verdadeira?
Cristãos, muçulmanos, judeus e deístas concordam no tópico (a) (e os argumentos citados por mim no início servem para dar suporte – inicial, ao menos – para o item (a) apenas). O que eles discordam  por qual forma   certa ou válida Deus se revelou – seja na Torah, seja por Jesus Cristo, seja por Maomé ou seja em nenhuma dessas opções (caso aceito pelos deístas).

E o fato de discordarem sobre como Deus se manifestou ou como Deus agiu na história NÃO os faz falarem sobre um “Deus” diferente. Se adotassemos esse critério, então teríamos que dizer que a cada biografia que traz um perfil diferente de um biografado está se referindo a OUTRA pessoa – quando, na verdade, assim como no caso das revelações, pode ser simplesmente que eles concordem sobre quem estão falando, mas alguns dos biógrafos esteja com uma interpretação falsa ou distorcida da existência dessa pessoa biografada.
Enfim, uma refutação poderia ir assim:
  • FORISTA: Por que você acredita em Deus e não em Thor, Osíris, Rá ou Afrodite? São todos mitológicos igualmente.
  • REFUTADOR: Eu posso dar razões para acreditar em Deus. Existem argumentos, como o Cosmológico, Fine Tunning e Moral que apontam para a existência de Deus. Por isso, Ele é diferente das divindades politeístas.
  • FORISTA: Mas para os fiéis, Krishna e Rá são seu “Deus”. Eles poderiam usar esses argumentos também, portanto.
  • REFUTADOR: Não, não poderiam. Krishna e Rá são seres contingentes, não transcendentes. Para ser Deus, é preciso ser um ser transcendental à matéria, muito poderoso e outros atributos que você pode ler conforme definido pelos filósofos nessas argumentações. Se tiver todos esses, então, você pode chamar de “Deus” ou de “Zé da Esquina”, pois vamos estar falando objetivamente do mesmo ser.
  • FORISTA: Hmmm… Mas você não pode indicar o Deus cristão por isso. Eles servem também para aqueles que chamam de Allah e como eles tem nomes diferentes, então são Deuses diferentes.
  • REFUTADOR: Non-sense. Se fosse pelo seu critério de nomes, ao dar um apelido para alguém eu estaria formando uma nova pessoa. É o mesmo Deus com uma interpretação focada em uma base diferente. (Ah sim: Allah é a palavra deles para “Deus”, assim como “God” nos Estados Unidos).
  • FORISTA: Afirmar que qualquer Deus é o mesmo é crença sua sim. Ponto final.
  • REFUTADOR: Você não argumenta, só chega aqui e diz que “é crença sim”, por decreto. Mas vá lá. Não existe “qualquer Deus”. Deus é um nome próprio, que se refere a uma divindade específica. Assim como não existe “qualquer Thor” ou “qualquer Poseidon”… são nomes próprios que se referem a um tipo específico de ser.
[E assim vai, até acabar com ele]

Conclusão


Para refutá-lo, basta citar os argumentos a favor da existência de Deus e diferenciá-lo dos outros deuses e divindades parelelas. Depois, cuide das técnicas paralelas e as responda também – e voi-lá, mais um estratagema neutralizado.

Visite: quebrandoneoateismo.com.br

terça-feira, 5 de julho de 2011

Deus existe?

                                                    Voltar para [Índice do Blog] - [Início]

C. S. Lewis comentou certa vez que a existência de Deus é muito mais que uma questão meramente interessante. Afinal, se Deus não existe, não há nenhuma razão para nos interessarmos por ele. Mas se existe, nosso maior objetivo de vida é nos relacionarmos com este ser do qual depende nossa existência.

Muitos consideram o assunto irrelevante. Quem pensa assim demonstra que não refletiu seriamente sobre o problema. Até mesmo filósofos ateístas como Sartre e Camus admitiram que a existência de Deus é importante para a humanidade. Proponho três razões para meditarmos sobre a importância de Deus.

Sem Deus, a vida não tem sentido

Imagine que não há vida após a morte. Nesse caso, pouco importa a maneira como vivemos, pois se não precisamos prestar contas de nossos atos a Deus, significa que ninguém será punido ou recompensado por suas ações. Do ponto de vista moral, nossa existência se torna irrelevante. É óbvio que a vida ainda possuiria significado relativo, no sentido de que influenciamos outras pessoas ou alteramos o curso da história. Algum dia, entretanto, o universo se esfriará por completo e tudo perecerá. Quando isso acontecer, não fará nenhuma diferença as contribuições dos cientistas para o avanço do conhecimento, as pesquisas médicas para aliviar a dor e o sofrimento, o empenho dos diplomatas para garantir a paz no mundo, o sacrifício para melhorar a qualidade de vida da humanidade etc.; tudo terá sido em vão.

Sem Deus, não há esperança


Ou melhor, sem Deus não há esperança de nos livrarmos do mal. Embora muitos questionem como um Deus bom pôde criar um mundo com tanta maldade, na verdade a maior parte do sofrimento é causada pelo próprio ser humano. Os horrores das últimas duas guerras mundiais destruíram a ingenuidade otimista do século XX quanto ao progresso moral da humanidade. Se Deus não existe, estamos presos a um mundo sem esperança, repleto de sofrimento gratuito e sem a menor condição de erradicarmos o mal.

Além disso, se não há Deus, não há como escaparmos do envelhecimento e da morte. Talvez os mais jovens tenham dificuldade para compreender isso, mas a menos que o indivíduo morra jovem, em breve travará uma guerra perdida tentando impedir o avanço inevitável do envelhecimento e das doenças (possivelmente incluindo a senilidade) e, ao final (se não há vida após a morte) deixará de existir. O ateísmo, portanto, é uma filosofia sem esperança.

Em contrapartida, se Deus existe a vida adquire significado e esperança, além da possibilidade de conhecê-lo e amá-lo pessoalmente. Pense em um Deus bom e infinito que deseja amá-lo e ser seu amigo. Que mais o ser humano poderia desejar? Se Deus existe, sem dúvida faz toda diferença acreditar nele, não apenas para a humanidade, mas para você e eu.

Apesar de nenhum desses argumentos provar de modo categórico a existência de Deus, demonstram que faz toda diferença se Deus existe. Ainda que as evidências a favor e contra fossem absolutamente iguais, creio que a atitude mais racional seria acreditar em Deus. Em outras palavras, se houvesse 50% de chance de Deus existir ou não, porque alguém escolheria a morte, a futilidade e o desespero em detrimento da esperança, do propósito e da alegria?

Entretanto, não acredito que as evidências sejam absolutamente iguais e quero expor cinco razões plausíveis para você acreditar em Deus. Muitos livros foram escritos sobre cada uma delas, de modo que minha intenção aqui é apenas apresentar um breve resumo. Todo ser humano possui em sua psique a vontade de procurar sentido nas coisas e compreender a realidade como ela é de fato. Observe que a existência de Deus faz sentido para explicar diversos fatos de nossa existência.

1. A existência de Deus explica a origem do universo


Alguma vez você se perguntou de onde surgiu o universo? Por que existe algo ao invés de nada? Alguns acreditam que o universo é eterno e ponto final. Mas essa não é uma resposta racional. Basta refletir: se o universo nunca teve um começo, significa que houve infinitos acontecimentos no passado. A matemática, entretanto, demonstra a incoerência de afirmar a existência real de um número infinito de coisas. Por exemplo, quanto é infinito menos infinito? De acordo com a matemática, o resultado é contraditório. Isso mostra que o infinito é apenas uma concepção mental e não algo que existe na realidade. David Hilbert, possivelmente um dos maiores matemáticos do século XX, afirma: "O infinito não existe no mundo real; não existe na natureza e não fornece base legítima para o pensamento racional. O infinito existe apenas no mundo das ideias." [1]

Considerando que os acontecimentos passados não são imaginários, mas fatos reais, o número de acontecimentos passados não pode ser infinito, de modo que há apenas uma conclusão lógica: o universo teve um começo. Surpreendentemente, essa conclusão vem sendo confirmada pela ciência moderna por meio de várias descobertas astronômicas e astrofísicas. Hoje temos evidências concretas de que o universo não é eterno, mas teve um início cerca de 13 bilhões de anos atrás por meio de um evento cósmico conhecido como Big Bang. Esse evento deu origem ao universo literalmente a partir do nada, isto é, toda a matéria e energia, inclusive o próprio espaço e o tempo, passaram a existir a partir dessa "explosão". Conforme explica o físico P. C. W. Davies, "o surgimento do universo, de acordo com a ciência moderna [...] não se trata apenas de impor ordem [...] sobre um estado de caos anterior; antes, estamos falando do surgimento de todas as coisas físicas literalmente a partir do nada".

Várias teorias alternativas têm sido propostas ao longo dos anos para tentar contornar essa conclusão, porém a teoria do Big Bang continua sendo a única alternativa plausível na comunidade científica. De fato, em 2003 os cientistas Arvind Borde, Alan Guth e Alexander Vilenkin provaram que nenhum universo em estado de expansão cósmica pode existir eternamente, mas deve necessariamente ter um início absoluto. Vilenkin afirma:

Diz-se que o argumento convence homens racionais, e a prova convence até mesmo os irracionais. Agora que temos a prova, os cosmologistas não podem continuar a se esconder atrás da possibilidade de um universo eterno no passado. Não há escapatória, precisam enfrentar o problema do nascimento cósmico.[3]
Anthony Kenny, professor da Universidade de Oxford, exprimiu a questão de modo contundente: "A menos que sejam ateístas, os proponentes da teoria do Big Bang são forçados a acreditar que o universo surgiu do nada".[4]

Essa ideia, entretanto, não faz sentido, pois não é possível algo surgir do nada. Então por que o universo existe, ao invés de nada? De onde surgiu? Deve ter havido uma causa que o produziu. Esse argumento pode ser resumido da seguinte maneira:

1. Tudo o que tem um começo tem uma causa.
2. O universo teve um começo.
3. Portanto, o universo tem uma causa.

Se as premissas 1 e 2 são verdadeiras, a conclusão é inevitável.

Considerando as circunstâncias envolvidas, esta causa que deu origem ao universo é uma entidade não-criada, imutável, eterna e imaterial. Não é criada porque, conforme observamos anteriormente, não é possível haver um regresso infinito de causas; é eterna (e, portanto, imutável, pelo menos em sua existência fora do universo) porque criou o tempo; e porque também criou o espaço, deve transcender a este; portanto, é um ser imaterial, isto é, não-físico.

Além disso, pode-se dizer que é um ser pessoal, pois de que outra maneira uma causa eterna produziria um efeito temporal como o universo? Se a causa fosse um conjunto inevitável e suficiente de estados e operações mecânicas, não poderia existir de modo independente do efeito. Por exemplo, a causa do congelamento da água está na diminuição da temperatura para menos de 0º centígrados. Se a temperatura tivesse permanecido abaixo de 0º centígrados desde o passado eterno, toda água que existe hoje estaria congelada desde a eternidade; nesse caso, seria impossível que a água tivesse começado a congelar apenas em um período finito de tempo atrás. Portanto, se a causa existe continuamente, o efeito também deve existir continuamente. A única forma de uma causa ser eterna e seu efeito ter início em determinado momento é supor que se trata de um agente pessoal que escolheu livremente produzir um efeito no tempo, sem nenhuma relação com circunstâncias predeterminadas. Por exemplo, um homem sentado eternamente pode decidir levantar-se. A partir disso inferimos não apenas uma causa transcendente para o universo, mas o próprio Criador.

É um fato extraordinário que a teoria do Big Bang confirme exatamente aquilo que os cristãos sempre acreditaram: no princípio, criou Deus o universo. Qual conclusão parece mais sensata: Deus criou o universo ou este surgiu do nada, sem causa?

2. A existência de Deus explica o ajuste fino do universo para sustentar vida inteligente


Durante os últimos 40 anos os cientistas descobriram que a existência de vida inteligente depende de um equilíbrio complexo e delicado de condições iniciais que surgiram com o Big Bang. Inicialmente os cientistas acreditavam que, independente de quais fossem as condições iniciais, mais cedo ou mais tarde a vida inteligente teria evoluído por si mesma. Hoje, porém, sabemos que a existência de vida inteligente depende de um conjunto inicial de condições ajustadas a uma proporção incompreensível e incalculável.

Este ajuste fino do universo aparece sob duas formas. Primeiro, ao expressarmos as leis da natureza na forma de equações matemáticas, observamos certas constantes, como a constante gravitacional. As constantes não são determinadas pelas leis da natureza, pois estas são compatíveis com uma ampla extensão de valores para aquelas. Segundo, além dessas constantes, existem certas quantidades arbitrárias estabelecidas a partir das condições iniciais que deram origem às leis da natureza (por exemplo, a entropia e o equilíbrio entre matéria e antimatéria no universo). Todas estas constantes e quantidades se encaixam num âmbito estreitíssimo de valores capazes de sustentar vida. Caso fossem alteradas apenas um milésimo, o equilíbrio seria destruído e a vida não existiria.

O físico Paul Davies calculou que uma pequena mudança de uma parte em 10 em100 na força gravitacional ou na força nuclear fraca seria o suficiente para impedir o surgimento da vida no universo. A constante cosmológica que impulsiona a inflação do universo (também responsável pela recém descoberta aceleração de expansão do universo) é fixada de modo inexplicável em torno de uma parte para 10 em120. Roger Penrose, da Universidade de Oxford, calculou que a possibilidade de a baixa entropia do Big Bang existir por acaso é da ordem de um para 1010(123). Penrose comenta: "Não consigo pensar em nenhuma outra coisa na física cuja precisão se aproxime, ainda que remotamente, de uma cifra como 1 parte para 1010(123)" [5]. E não se trata simplesmente de cada uma dessas constantes ou quantidades apresentar ajustes exatos; é preciso que suas proporções entre si também sejam ajustadas. Como se vê, são improbabilidades multiplicadas por improbabilidades, gerando números incompreensíveis que desorientam a mente.

Há três possibilidades para explicar a presença desse extraordinário ajuste fino no universo: necessidade física, acaso ou planejamento. A primeira alternativa aposta na descoberta da "teoria sobre tudo" que poderia explicar o universo como um todo. Em linhas gerais, essa teoria propõe que tudo que existe deve acontecer exatamente da forma como observamos, de modo que não há possibilidade de o universo não ser ajustado para permitir vida. A segunda opção, ao contrário, declara que o ajuste do universo ocorreu por acaso: ou seja, é mera coincidência o fato de a vida ter surgido nesse universo (como diriam alguns: "Tivemos muita sorte!"). A terceira alternativa rejeita as anteriores e propõe a existência de uma mente inteligente por trás do planejamento cósmico, isto é, alguém planejou o universo com o objetivo específico de permitir o desenvolvimento de vida inteligente.

Em busca do razoável


A primeira alternativa (declarando que não há qualquer razão física para os valores verificados nas constantes) parece demasiado implausível. Conforme declara Paul Davies:

"Mesmo que as leis da física fossem singulares, disso não procede que o universo físico seja singular em si mesmo [...] às leis da física devemos acrescentar as condições cósmicas iniciais [...] Não há nada nos atuais conceitos de 'leis das condições iniciais' sugerindo, mesmo remotamente, que sua consistência com as leis da física implique singularidade. Pelo contrário [...] parece, portanto, que não há necessidade de o universo ser do jeito que é; poderia ter sido diferente". [6]

Por exemplo, o candidato mais promissor à TT (teoria sobre tudo, teoria das supercordas ou teoria-M) não prevê a singularidade de nosso universo. Na verdade, a teoria das supercordas permite algo em torno de 10500 universos diferentes que poderiam ser governados pelas atuais leis da natureza, nada contribuindo para explicar os valores e quantidades indispensáveis ao nosso universo.

Quanto à segunda alternativa propondo que o ajuste fino do universo surgiu por acaso, a probabilidade do surgimento espontâneo de um universo capaz de sustentar vida é tão minúscula que não pode ser considerada do ponto de vista racional. Mesmo que exista um "cenário cósmico" e esse contenha enormes quantidades de universos favoráveis à vida, ainda assim o número desses universos seria incomensuravelmente minúsculo em comparação ao total, a ponto de sua existência ser absurdamente improvável. Mesmo assim, alguns costumam dizer: "Mas poderia ter acontecido!". Quem pensa assim nunca parou para refletir sobre a extraordinária exatidão do ajuste fino necessário à vida. Essa pessoa nunca aplicaria a hipótese do acaso a nenhuma outra área de sua vida (por exemplo, ninguém recorreria ao acaso para explicar, ao acordar pela manhã, o aparecimento de um carro na garagem que estava vazia na noite anterior).

Alguns tentam escapar do problema dizendo que não deveríamos ficar surpresos com o ajuste fino do universo, pois se não tivesse acontecido, não estaríamos aqui para nos surpreender. Ora, é evidente que estamos aqui; portanto, era de se esperar que o universo fosse ajustado para nos receber. Esse raciocínio, todavia, é uma falácia que pode ser facilmente demonstrada por meio de uma analogia. Imagine que você está em viagem no exterior e de repente é preso por um policial que lhe acusa de porte de drogas. Sem qualquer explicação, o oficial o conduz para ser executado diante de 10 atiradores treinados, todos apontando armas para o seu coração. Alguém grita a ordem: "Preparar! Apontar! Fogo!"; você ouve o barulho ensurdecedor dos disparos e momentos depois percebe que continua vivo e sem nenhum arranhão, pois todos os atiradores erraram! Qual seria sua conclusão? Será que pensaria: "Não devo ficar surpreso. Afinal, se não tivessem errado eu não estaria aqui para ficar surpreso. Como ainda estou vivo, era de esperar que todos errassem". Sem dúvida não é isso o que pensaria. Pelo contrário, sua primeira reação seria suspeitar que os atiradores erraram de propósito e tudo não passou de uma armação. Você não ficaria surpreso se pudesse observar que está morto, mas certamente ficaria bastante surpreso se percebesse que está vivo! Da mesma forma, considerando a gigantesca improbabilidade do ajuste fino observado no universo, a atitude mais racional é concluir que não aconteceu por acaso, mas por planejamento.

A fim de resgatar o acaso, entretanto, os proponentes dessa teoria foram forçados a aderir à hipótese da existência de um número infinito de universos aleatórios agrupados dentro de uma espécie de multiverso onde nosso universo estaria inserido. De acordo com essa teoria, em algum lugar nesse multiverso infinito seria possível surgir, por acaso, universos cujas leis da natureza permitissem o desenvolvimento da vida, exatamente como aconteceu conosco. Essa hipótese, contudo, apresenta no mínimo duas falhas gravíssimas.
Em primeiro lugar, não temos nenhuma evidência de um multiverso. Aliás, não há como provar a existência de outros universos. Ademais, convém lembrar a demonstração de Borde, Guth e Vilenkin, provando que qualquer universo em estado de expansão cósmica contínua não pode ter existido desde o passado infinito. Esse teorema também se aplica ao multiverso. Considerando que o passado é finito, apenas um número finito de universos poderia ter surgido até esse momento. Por conseguinte, não há como saber se universos capazes de sustentar vida poderiam emergir desse multiverso.

Em segundo lugar, se nosso universo fosse um membro aleatório de um conjunto infinito de universos, haveria uma probabilidade gigantesca de vivermos em um universo muito diferente do que de fato observamos. Roger Penrose calculou que a probabilidade de nosso sistema solar formar-se por meio de colisões aleatórias de partículas é muito maior que o surgimento espontâneo de um universo capaz de sustentar vida [7].
Portanto, se nosso universo fosse um membro desse multiverso, haveria uma probabilidade enorme de estarmos vivendo em um universo não muito maior que nosso sistema solar. Além disso, a essa altura seria possível observar acontecimentos extraordinários, como cavalos alados surgindo e desaparecendo por meio de colisões aleatórias ou máquinas de movimento perpétuo, uma vez que a ocorrência dessas manifestações seria muito mais provável que todas as constantes e quantidades das leis da natureza surgirem por acaso a partir de um número praticamente infinitesimal de universos capazes de sustentar vida. Universos esdrúxulos como esses seriam mais abundantes nesse multiverso que mundos como o nosso, de modo que já deveríamos tê-los observado. A ausência de tais observações demonstra a invalidade da hipótese do multiverso. É muito provável, portanto, que esse multiverso não exista (pelo menos de acordo com a concepção ateísta).

Portanto, a concepção cristã (o universo foi planejado por um ser inteligente) faz mais sentido que a concepção ateísta (o universo surgiu por acaso). Este segundo argumento pode ser resumido da seguinte forma:

1. O ajuste fino do universo se deve a uma de três alternativas: necessidade física, acaso ou planejamento.
2. Verifica-se que não surgiu por necessidade física ou acaso.
3. Portanto, ocorreu por planejamento.

3. Deus faz sentido para explicar a existência de um padrão moral absoluto


Essa concepção se refere à distinção entre o certo e o errado, independente de lugar, época, cultura e opiniões. Por exemplo, é afirmar que o antisemitismo nazista era moralmente errado, ainda que os idealizadores do holocausto acreditassem que era bom. E continuaria sendo errado, mesmo que os nazistas tivessem ganhado a segunda guerra mundial e conseguissem exterminar ou fazer lavagem cerebral em todas as pessoas que não concordassem com eles. Mas se Deus não existe, então os valores morais absolutos também não existem.

Muitos teístas (e ateístas) concordam nesse ponto. Por exemplo, J. L. Mackie, da Universidade de Oxford, um dos mais influentes ateístas de nosso tempo, admite: "Se [...] existem [...] valores morais absolutos, eles tornam mais provável a existência de Deus do que se não existissem". [8] Porém, a fim de desconsiderar a existência de Deus, Mackie nega que existam valores morais absolutos: "É fácil explicar esse senso moral como sendo produto espontâneo da evolução biológica e social".[9] Michael Ruse, filósofo da ciência, concorda e explica:

"A moralidade é uma adaptação biológica, da mesma forma que mãos, pés e dentes. A ética, considerada como justificação racional de um conjunto de afirmações objetivas sobre algo, é ilusória. Aprecio quando alguém diz 'ame o próximo como a ti mesmo', imaginando com isso referir-se a algo acima e além de si mesmo. Todavia, essa referência não tem fundamento. A moralidade é apenas uma ferramenta de sobrevivência e reprodução [...] E qualquer sentido mais profundo é ilusório".
[10]

Friedrich Nietzche, proeminente ateísta do século XIX que anunciou a morte de Deus, entendeu que essa morte significava a destruição de todo o sentido e valor da vida. Acredito que Nietzche estava certo.

Entretanto, precisamos responder uma questão fundamental, e essa questão não é: "Devemos acreditar em Deus para termos uma vida moral?", pois não estou afirmando que devemos. Nem tampouco a questão é: "Podemos reconhecer valores morais objetivos sem acreditar em Deus?", pois acredito que podemos.
Antes, a questão fundamental é: "Se Deus não existe, como afirmar a existência de valores morais absolutos?" Se Deus não existe, conforme afirmam Mackie e Ruse, então não vejo razão para considerar a objetividade da moral humana. Afinal de contas, se Deus não existe, o que torna os seres humanos tão especiais? Nesse caso, seríamos apenas resultado de um acidente da natureza, criaturas imperfeitas evoluindo em uma minúscula partícula de pó perdida em um canto qualquer de um universo hostil e negligente, fadados a perecer em um espaço relativamente curto de tempo. Na cosmovisão ateísta, o estupro, por exemplo, era considerado algo desvantajoso do ponto de vista social, de modo que se tornou tabu durante o curso da evolução. Essa concepção, todavia, nada contribui para demonstrar que o estupro é uma perversidade moral. Excetuando-se as consequências sociais, a cosmovisão ateísta não oferece nenhum apoio para afirmar que o estupro é algo absolutamente errado. Se Deus não existe, então não há referencial de padrões morais absolutos ao qual submeter nossa consciência.

A verdade, porém, é esta: valores morais absolutos existem de fato, algo que todos reconhecemos em nossa consciência. Não há nenhuma razão para negarmos a realidade desses valores absolutos, assim como não há razão para negarmos a realidade objetiva do mundo material. O raciocínio exposto por Ruse apenas prova, na melhor das hipóteses, que evoluímos em nossa percepção subjetiva dos valores morais absolutos. Ora, se os valores morais estão sendo descobertos gradualmente, e não inventados, nossa percepção gradual e falível da esfera moral em nada altera sua realidade objetiva, assim como nossa percepção gradual e falível do universo físico não altera a realidade objetiva da matéria. A maioria das pessoas concorda com a existência de valores morais absolutos e o próprio Ruse confessa: "O homem que acredita que estuprar criancinhas é algo moralmente aceitável está tão errado quanto quem afirma que 2+2=5".[11]
Estupro, tortura e abuso de crianças não são apenas comportamentos socialmente inaceitáveis: são abominações morais. Em contrapartida, o amor, a lealdade e o sacrifício são virtudes morais verdadeiramente boas. Portanto, se entendemos que existem valores morais absolutos e que estes não podem existir sem Deus, a conclusão lógica e incontestável é que Deus existe. Esse argumento pode ser resumido da seguinte maneira:

1. Se Deus não existe, então os valores morais absolutos também não existem.
2. Contudo, sabemos que existem valores morais absolutos.
3. Portanto, Deus existe.

4. Deus faz sentido para explicar os fatos históricos sobre a vida, morte e ressurreição de Jesus


Jesus Cristo foi um indivíduo notável. Críticos do Novo Testamento têm chegado a um consenso de que existiu uma pessoa histórica chamada Jesus de Nazaré e que este possuía um senso de autoridade divina singular: falava como se fosse o próprio Deus. Por causa disso, a liderança judaica da época incitou sua crucificação, acusando-o de blasfêmia. Jesus afirmava que o reino de Deus finalmente havia chegado ao mundo em sua pessoa. Como demonstração desse fato, realizou um ministério de milagres e exorcismos. A confirmação definitiva de suas alegações, entretanto, ocorreu em sua ressurreição. Se Jesus de fato ressurgiu dos mortos, trata-se de um milagre sem precedentes e, portanto, clara evidência da existência de Deus.

Muitas pessoas pensam que a ressurreição de Jesus é algo que devemos aceitar ou não somente pela fé. Na verdade, há três fatos históricos estabelecidos e reconhecidos pela maioria dos historiadores do Novo Testamento, fatos que considero as melhores explicações para a ressurreição de Jesus: o túmulo vazio, seus aparecimentos e a origem da crença dos discípulos em sua ressurreição. Verifiquemos rapidamente cada um desses fatos.

Fato 1. O túmulo de Jesus foi encontrado vazio no domingo de manhã por um grupo de mulheres discípulas


De acordo com Jacob Kremer, estudioso australiano que se especializou no estudo da ressurreição: "a maioria dos estudiosos considera firmemente confiável o relato bíblico sobre o túmulo vazio".[12] De acordo com D. H. Van Daalen, é muito difícil refutar o túmulo vazio em termos históricos e aqueles que negam esse fato em geral o fazem com base em conjecturas teológicas ou filosóficas.

Fato 2. Em ocasiões distintas, grupos e indivíduos diferentes viram Jesus vivo após sua morte


De acordo com Gerd Lüdemann, proeminente crítico do Novo Testamento: "Pode-se considerar historicamente confiável as experiências de Pedro e os discípulos após a morte de Jesus, onde este apareceu como o Cristo ressurreto". [13] Estes aparecimentos foram testemunhados não apenas por seus discípulos, mas também por incrédulos e até mesmo inimigos.

Fato 3. Os discípulos que andaram com Jesus passaram repentinamente a acreditar em sua ressurreição, apesar de predisposição em contrário


Após a crucificação e morte de Jesus, os discípulos perderam o ânimo. Isso porque os judeus não concebiam o Messias como alguém que, ao invés de triunfar sobre os inimigos de Israel, teria de sofrer e morrer de forma vergonhosa, como um criminoso. Ademais, a crença judaica sobre a vida após a morte não lhes permitia imaginar que alguém pudesse voltar dos mortos antes da ressurreição geral estipulada somente para o fim dos tempos.

Todavia, os discípulos passaram a acreditar tão firmemente que Deus havia ressuscitado Jesus dentre os mortos que estavam dispostos a morrer por isso. Luke Johnson, estudioso do Novo Testamento na Universidade de Emory, declara: "É necessário uma experiência poderosa, transformadora, para produzir o tipo de movimento que deu origem ao cristianismo primitivo".[14] N. T. Wright, proeminente estudioso britânico, conclui: "É por essa razão que, como historiador, não posso explicar o surgimento do cristianismo primitivo a menos que Jesus tenha ressuscitado, deixando um túmulo vazio atrás de si".[15]

Todas as teorias para explicar estes três fatos (p.ex., que os discípulos roubaram o corpo ou que Jesus não morreu de verdade) foram universalmente rejeitadas pela erudição contemporânea. Não há nenhuma explicação naturalista plausível que explique esses acontecimentos. O teísta cristão, portanto, está plenamente justificado em acreditar que Jesus ressuscitou dos mortos e de fato era quem afirmava ser. A partir disso podemos inferir a existência de Deus por meio do seguinte argumento:

1. Há três fatos históricos acerca de Jesus de Nazaré: a descoberta de seu túmulo vazio, seus aparecimentos post mortem e a origem da crença dos discípulos em sua ressurreição.
2. A hipótese "Deus ressuscitou Jesus dos mortos" é a melhor explicação para estes fatos.
3. A hipótese "Deus ressuscitou Jesus dos mortos" implica que o Deus revelado por Jesus de Nazaré existe.
4. Portanto, o Deus revelado por Jesus de Nazaré existe.

5. Podemos conhecer a Deus e nos relacionar com ele, neste exato momento


Esta declaração não é exatamente um argumento para a existência de Deus. Antes, trata-se de um convite para que você mesmo verifique a existência de Deus de forma prática e independente de qualquer argumento. Para isso, basta apenas falar com ele, agora mesmo. Essa era a forma como as pessoas na Bíblia conheciam a Deus. Conforme explica o professor John Hick:

"As pessoas conheciam a Deus por meio de uma interação dinâmica da vontade divina com as suas, uma realidade absoluta e incontestável, tal qual a chuva e a luz do sol [...] Não pensavam em Deus como uma entidade a ser inferida, mas como uma realidade a ser experimentada. Para eles, Deus não era [...] uma ideia concebida pela mente, mas uma experiência real que conferia significado à vida".[16]

Os filósofos chamam esse relacionamento com Deus de "crença básica adequada", isto é, crenças que não são baseadas em outras crenças; antes, estão fundamentadas em um sistema de crenças pessoais. Por exemplo, a crença na realidade do passado, a existência de um mundo material exterior ao indivíduo e a crença na presença de mentes iguais a nossa. Se refletir sobre essas crenças, perceberá que nenhuma delas pode ser provada cientificamente. Tente imaginar de que forma você poderia provar que o mundo não surgiu apenas 5 minutos atrás, um universo inteiro criado instantaneamente com a aparência de existir a milhares de anos, incluindo até mesmo comida em nosso estômago de uma refeição que nunca consumimos, além de memórias em nosso cérebro de acontecimentos que nunca experimentamos? Ou ainda, como você poderia provar que não é um cérebro preso dentro de um supercomputador que simula todos os seus sentidos e percepções?

Embora sejam chamadas de crenças básicas, não significa que sejam arbitrárias. Pelo contrário, são crenças fundamentais no sentido de que surgem dentro de um contexto de certas experiências. Por exemplo, minhas experiências sensoriais em termos de visão, audição e tato me possibilitam construir, de modo natural, a crença na existência de objetos físicos. Não se trata, portanto, de uma crença arbitrária. Antes, está fundamentada em minhas experiências. Talvez não seja possível provar determinada crença, mas nem por isso deixa de ser perfeitamente racional para o indivíduo que nela crê. Em outras palavras, seria preciso que o mundo enlouquecesse para imaginar que o universo foi criado apenas 5 minutos atrás, ou que somos apenas cérebros presos a circuitos eletrônicos.

Portanto, crenças baseadas em experiências de vida não são apenas básicas, mas adequadas. A fé em Deus se enquadra nessa categoria, pois se trata de uma crença fundamentada em experiências pessoais com o Criador. Esse argumento pode ser resumido da seguinte forma:

1. Toda fé adequada e fundamentada pode ser aceita racionalmente como crença básica, independente de argumentos.
2. A crença de que o Deus da Bíblia existe é adequada e fundamentada.
3. Portanto, a crença de que o Deus da Bíblia existe pode ser aceita racionalmente como crença básica, independente de argumentação.

Caso todo o exposto acima esteja correto, existe o perigo de os argumentos a favor da existência de Deus distraírem a atenção das pessoas com relação ao próprio Deus. Se você busca a Deus com sinceridade, ele se mostrará evidente para você. A Bíblia afirma: "Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros" (Tiago 4.8). Não devemos focalizar toda nossa atenção nas provas a ponto de não ouvirmos a voz de Deus falando conosco. Para quem estiver disposto a ouvir, Deus se tornará uma realidade viva e imediata.

Concluindo, estudamos cinco razões para acreditar na existência de Deus.
1. A origem do universo.
2. O ajuste fino do universo a fim de sustentar vida inteligente.
3. A existência de padrões morais absolutos.
4. A vida, morte e ressurreição de Jesus.
5. A possibilidade de conhecer a Deus neste exato momento.

Esses argumentos fazem parte de um conjunto de evidências a favor da existência de Deus. Alvin Plantinga, proeminente filósofo contemporâneo, apresentou mais de vinte argumentos a favor da existência de Deus.[17] Considerados em conjunto, esses argumentos formam um corpo de evidências cumulativas bastante convincente. O teísmo cristão, portanto, é uma cosmovisão plausível e deve ser analisado com cuidado por todo ser humano racional.

____________________________________
Referências

[1] David Hilbert, "On the Infinite", Philosophy of Mathematics, ed. com introdução de Paul Benacerraf e Hillary Putnam, Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1964, pp. 139, 141.
[2] ABC Science Online, "The Big Questions: In the Beginning". Entrevista com Paul Davies, por Philip Adams, http://aca.mq.edu.au/pdavies.html.
[3] Alex Vilenkin, Many Worlds in One: The Search for Other Universes, New York: Hill e Wang, 2006, p. 176.
[4] Anthony Kenny, The Five Ways: St. Thomas Aquinas' Proofs of God's Existence, New York: Schocken Books, 1969, p. 66.
[5]Roger Penrose, "Time-Asymmetry and Quantum Gravity", Quantum Gravity 2, ed. C. J. Isham, R. Penrose, e D. W. Sciama, Oxford: Clarendon Press, 1981, p. 249.
[6] Paul Davies, The Mind of God, New York: Simon & Schuster, 1992, p. 169.
[7] Ver Roger Penrose, The Road to Reality, New York: Alfred A. Knopf, 2005, pp. 762-5.
[8]J. L. Mackie, The Miracle of Theism, Oxford: Clarendon Press, 1982, pp. 115-16.
[9] Idem, pp. 117-18.
[10] Michael Ruse, "Evolutionary Theory and Christian Ethics", The Darwinian Paradigm, London: Routledge, 1989, pp. 262-269.
[11] Michael Ruse, Darwinism Defended, London: Addison-Wesley, 1982, p. 275.
[12]Jacob Kremer, Die Osterevangelien--Geschichten um Geschichte, Stuttgart: Katholisches Bibelwerk, 1977, pp. 49-50.
[13] Gerd Lüdemann, What Really Happened to Jesus?, trad. por John Bowden, Louisville, Kent.: Westminster John Knox Press, 1995, p. 8.
[14]Luke Timothy Johnson, The Real Jesus, San Francisco: Harper San Francisco, 1996, p. 136.
[15] N. T. Wright, "The New Unimproved Jesus", Christianity Today, 13 de setembro de 1993, p. 26.
[16]John Hick, "Introduction", The Existence of God, ed. com introdução de John Hick, Problems of Philosophy Series, New York: Macmillan Publishing Co., 1964, pp. 13-14.
[17]Alvin Plantinga, "Two Dozen (or so) Theistic Arguments". Preleção apresentada na 33ª Conferência Anual de Filosofia, Wheaton College, Wheaton, Illinois, 23-25 de outubro de 1986. Disponível online em http://philofreligion.homestead.com/files/Theisticarguments.html.

sábado, 2 de julho de 2011

Submetendo o Novo Testamento ao teste bibliográfico

                                                   Voltar para [Índice do Blog] - [Início]

Em Introduction to Research in English Literary History [Introdução à Pesquisa em História Literária Inglesa], o historiador militar dr. C. Sanders oferece critérios para estabelecer a confiabilidade e a exatidão de qualquer peça de literatura da antiguidade. Dentre eles está o teste bibliográfico, o qual submeteremos o Novo Testamento neste artigo.

O teste bibliográfico é o seguinte: Uma vez que não temos os documentos originais ( chamados autógrafos), qual o grau de confiabilidade e precisão das cópias que temos em relação ao número de manuscritos (manuscritos são cópias feitas à mão do autógrafo), e qual o intervalo de tempo entre o original e as cópias existentes?

Novamente, há duas perguntas básicas: 1) Não havendo os documentos originais, qual o grau de confiabilidade das cópias existentes em relação ao número de manuscritos? e 2) Qual é o intervalo de tempo entre o documento original e as cópias existentes? Em resposta a essas perguntas, pode-se entender que há evidências de manuscritos mais precisos e em quantidade muito maior para o NT que para qualquer outro livro do mundo antigo. Além disso, há mais manuscritos copiados com maior exatidão e datação mais antiga do que para qualquer clássico secular da antiguidade.

Em History and Christianity [História e Cristianismo], John Warawick Montgomery apresenta uma evidência forte ao Jesus histórico [ver meu artigo sobre a historicidade de Jesus]. No começo do livro, Montgomery cita uma palestra do professor Avrum Stroll, na Universidade da Columbia Britânica, intitulada ''Jesus existiu de fato?''. A posição do professor Stroll é resumida na sentença final de sua preleção:

''Um acréscimo de lendas que surgiram a respeito desse personagem [Jesus] foi incorporado nos evangelhos por vários devotos do movimento e rapidamente se espalhou pelo mundo mediterrâneo por meio do ministério de S. Paulo. Por causa disso é impossível separar esses elementos lendários nas descrições pretensas de Jesus daquelas que de fato eram verdadeiras a respeito dele''

Em resposta à essa hipótese, e outras de natureza semelhante, é preciso apenas assinalar alguns fatos referentes às evidências dos manuscritos. Um deles está na Biblioteca John Rylands, em Manchester, Inglaterra e é conhecido por Fragmento John Rylands. Esse papiro contém cinco versículos do evangelho de João (18:31-33,37,38). Foi encontrado no Egito e foi datado entre 117 d.C. e 138 d.C. O grande filólogo Adolf Deissman argumentou que podia ser ainda mais antigo [1].

Essa descoberta destruiu a idéia dos críticos da Bíblia de que o NT foi escrito durante o segundo século a fim de providenciar tempo para que surgissem mitos em torno da verdade.

A tabela a seguir (extraída do livro Fundamentos Inabaláveis, de Norman Geisler) é uma pequena amostra da grande quantidade de evidências manuscritas disponíveis, que fazem os documentos do NT passarem no teste bibliográfico com notas muito boas. A tabela apresenta manuscritos do NT, datas, conteúdo e localização de alguns dos mais importantes manuscritos.



Uma vez mais, isso é apenas uma pequena amostra das evidências empíricas que dão sustentação à confiabilidade dos documentos do NT. A soma total só de manuscritos gregos é agora 5.686. Além desses, há mais de 10 mil manuscritos em latim. 4.100 em língua eslava; 2.500 em armênio; mais de 2.000 em etíope etc. Isso soma 24.286, além de centenas de outras línguas [2].

O único texto antigo que sequer pode comparar-se às evidências de manuscritos do NT (5.686) é a Ilíada, de Homero, com apenas 643 exemplares. E além disso, o intervalo de tempo entre o original e as cópias existentes é muito significativo, porque quanto maior é o espaço de tempo, menos dados há para os estudiosos trabalharem com a reconstrução do original.

O espaço médio de tempo entre o original e a cópia mais antiga dos outros grandes textos da antiguidade é superior a mil anos. Entretanto, o NT tem um fragmento dentro de uma geração (fragmento John Rylands) de sua redação original. Livros inteiros aparecem dentro de cem anos de distância do original, a maioria do NT dentro de duzentos anos, e todo o NT cerca de 250 anos da data do seu término.

Além do mais, o grau de precisão é maior para o NT que para outros documentos comparáveis - aproximadamente 99 por cento copiados com precisão. O fato é que ''a maioria não sobrevive com manuscritos suficientes para permitir comparação. Algumas cópias mil anos mais antigas que o fato não fornecem elos suficientes na cadeia perdida nem correções de variantes suficientes no manuscrito para capacitar os estudiosos do texto a reconstruir o original'' [3]. Ao contrário, qual a importância das leituras variantes do NT?

Os especialistas em manuscritos Westcott e Hort estimaram que apenas cerca de um oitavo das variantes tem algum peso, uma vez que a maior parte delas são simplesmente assuntos mecânicos como ortografia e estilo. Do todo, somente cerca de um sexto está acima de ''trivialidades'', ou pode de alguma forma ser chamado de ''variação substancial''. [4] Matematicamente, isso significa um texto 98,33% puro.

A.T. Robertson deu a entender que a preocupação real da crítica textual é de ''milésima parte do todo'' [5]. Isso tornaria o texto do NT 99,9% reconstruído, livre de qualquer erro substancial ou de consequência. Por isso, B.B. Warfield observou que ''a grande massa do Novo Testamento, em outras palavras, nos foi transmitida sem nenhuma variação, praticamente sem nenhuma'' [6].

À primeira vista, a grande multidão de variantes parece uma deficiência com relação à integridade do texto bíblico. Mas exatamente o contrário é verdadeiro, pois o número maior de variantes supre ao mesmo tempo os meios de verificar as variantes. Por mais estranho que pareça, a corrupção do texto fornece os meios de sua própria correção!

Uma comparação honesta de três observações: 1) o número de manuscritos; 2) o espaço de tempo entre o original e a cópia mais antiga; e 3) a exatidão do NT, todas dão testemunho de que o NT é o documento históricamente mais exato de todos da antiguidade.

Se diante disso não se pode confiar no NT, então se deve rejeitar toda a história antiga que repousa sobre evidências muito mais fracas. Tão claras são as evidências para o NT que ninguém menos que o falecido erudito em manuscritos Sir Frederic Kenyon pôde escrever:

''Portanto, o intervalo entre as datas da composição original e as evidências ainda existentes mais antigas se torna tão pequeno que na verdade é desprezível, e o último fundamento para qualquer dúvida de que as Escrituras chegaram a nós substancialmente como foram escritas agora foi removido. Tanto a autenticidade como a integridade geral dos livros do Novo Testamento podem ser consideradas finalmente estabelecidas'' [7]

________________________
Referências

[1] Norman Geisler & William Nix, A General Introduction to the Bible, p. 268
[2] Idem, p. 30-54
[3] Norman GEISLER, Christian pologetics, p. 308
[4] WESTCOTT & HORT, The New Testament in the Original Greek, Vol II, p. 22
[5] A.T.ROBERTSON, An Introduction to the Textual Criticism of the New Testament, p. 22
[6] Idem, p. 154
[7] Norman Geisler & William Nix, A General Introduction to the Bible, p. 285

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Física Quântica e o Nada x Argumento Cosmológico

                                                     Voltar para [Índice do Blog] - [Início]
                                                
Na tentativa de escapar de uma criação ex nihilo (do nada) para o Universo, alguns ateus apelam para diversos argumentos, entre eles a Física Quântica, mais espcificamente o vácuo quântico, afirmando que o tal foi suficiente para trazer o Universo à existência. Entretanto, a objeção falha, como veremos agora nesse excelente post de Snowball, do blog quebrandoneoateismo. A postagem é um pouco longa, mas vale a pena conferir até o final.

Indice:
  • 1. Introdução
  • 2. Racionalidade e justificativa – uma visão rápida
  • 3. O Modelo Cosmológico Friedmann-Lemaitre Padrão – “Big Bang”
  • 4. Pode algo vir do nada? – A discussão
  • 4.1. Ontologizando o nada
  • 4.2. O Argumento Dedutivo contra a criação a partir do nada
  • 4.3. O Argumento Indutivo contra a criação a partir do nada
  • 4.4. Física Quântica – o que ela mostra e o que ela não mostra
  • 4.5. Reductio Ad Absurdum – qual a limitação do nada?
  • 4.6. O Argumento Cético Final contra o nada
  • 5. Conclusão
1. Introdução:

Muitos neo-ateus e ateus alegam ter derrubado o Argumento Cosmológico citando a Física Quântica. Juntamente com a alegação de que o Kalam é utilizado a partir de um raciocínio de “Deus das Lacunas” (ou seja, um argumento da ignorância – coisa que já refutei no artigo “Seria o argumentos cosmológico Kalam uma versão do Deus das Lacunas?”) essa é uma das estratégias de contra-ataque mais utilizadas. Embora esse assunto já tenha sido tratado brevemente no post “Cosmologia e Início do Universo”, voltarei a analisá-lo por aqui. Começarei com uma pequena visão sobre o que é justificativa. Em seguida, irei falar do modelo padrão para o início do Universo, indo em seguida para a discussão da ontologia do nada e da física quântica tendo, então, finalmente, nossa conclusão.

2. Racionalidade e justificativa.

Antes de tudo, precisamos estabelecer como é a versão discutida do Argumento e qual seu objetivo. O argumento cosmológico, nas suas defesas contemporâneas mais famosas, se fundamenta em duas premissas:
  • (p1) Tudo que começa a existir tem uma causa.
  • (p2) O Universo começou a existir.
  • (c) O Universo tem uma causa.
O argumento é dedutivamente válido, com o termo médio bem distribuído. Seu objetivo é cumprir o objetivo geral da teologia natural. Como explica Alvin Plantinga, “a função típica da teologia natural tem sido demonstrar que a crença religiosa é racionalmente aceitável”. [2] Logo, para alguém declarar que esse é um bom argumento, justificadamente, basta que seja racional acreditar, pois, nas duas afirmações (p1) e (p2) que o constituem.  E se essa pessoa estiver certa em sua afirmação, a racionalidade da conclusão segue de forma lógica e necessária.

Mas uma nova questão surge: qual é a maneira correta de se analisar justificativa e racionalidade? Essa é uma longa discussão, mas a maneira tradicional tem sido em termos de uma atitude normativa: uma pessoa é irracional se ela estiver em falta com alguma obrigação epistêmica a qual ela está intelectualmente vinculada.
Deixe-me dar alguns exemplos. Tipicamente, o que os ateus tem dito é que a crença em Deus é irracional porque ela não está baseada em evidências suficientes – ou seja, que uma pessoa é racional em acreditar em algo somente se ela tiver evidências proporcionais a essa crença. Não quero discutir essa objeção aqui [3], mas ela nos dá um exemplo de obrigação epistêmica relacionada àquela atitude normativa mencionada.

Outro dever epistêmico comumente aceito é de formar uma conclusão a partir de uma hipótese mais simples ou da melhor explicação para um determinado fato. Suponha que eu seja um detetive investigando um roubo. Eu tenho três pistas. A primeira é de que o maior suspeito (vamos chamá-lo de ‘Richard Dawkins’) estava perto da cena do crime quando ele foi cometido. A segunda pista está no fato de que encontrei impressões digitais de Dawkins no cofre do local assaltado. A terceira pista é de que o dinheiro roubado foi ENCONTRADO na casa de Dawkins. Então, eu, como detetive, concluo que Dawkins foi o ladrão do cofre.

Mas há outras hipóteses que podem ser igualmente verdadeiras e que cobrem todas as evidências exatamente como a minha. Por exemplo, a hipótese de que Dawkins estava na cena do crime de forma totalmente ingênua enquanto ia visitar sua velha avó. Alguma pessoa desconhecida de Dawkins também estava se divertindo colocando impressões digitais de outras pessoas em cofres que essas pessoas nunca roubaram sem nenhum motivo maior em particular. E a pessoa que roubou o dinheiro acabou perdendo-o no meio do caminho. O dinheiro foi encontrado por algum estranho que sem maiores motivos resolveu colocar ele na casa de Dawkins, que nesse interim todo não sabia de nada. Observe que as duas explicações cobrem todas as evidências.

Se eu, ao analisar as evidências, concluísse que HAVIA acontecido o segundo caso, e não o primeiro, então eu estaria sendo irracional (e também é provável que eu recebesse em breve minha demissão). Então o exemplo da ausência de evidências e da melhor hipótese são alguns dos exemplos usuais de normas que alguém devem seguir ao formar uma conclusão sob pena de estar em estado de irracionalidade.

Finalmente, qual é a maneira correta de se pensar em algo tendo uma “causa” ou mesmo no sentido do termo “causa”? Talvez seja a seguinte: podemos pensar em um estado de coisas S de tal forma que ele explica, fornece uma razão, um porquê, ou de forma necessária ou probabilisticamente, de um estado posterior S*. A explicação para (S*) ‘você está lendo meu texto’ está em ‘(S) Você deseja ler meu texto e não tinha nenhum impeditivo para tanto’ e por aí segue.

Feitas essas explicações introdutórias, vamos passar a discussão do argumento em si e da objeção quântica.

3. O Modelo Cosmológico Friedmann-Lemaitre Padrão – “Big Bang”


O modelo no qual o Argumento Cosmológico atual trabalha é o modelo Friedmann–Lemaître (que veio a ser conhecido como modelo “Big Bang” de forma popular) que não descreve um Universo eterno no passado, mas sim um que começou a existir a um tempo finito atrás. Mais do que isso, sua origem postula uma origem absolutamente ex nihilo em termos físicos, pois não só toda matéria e energia mas o próprio tempo e espaço passaram a existir na singularidade cósmica inicial. Como afirmam Barrow e Tipler,
Na singularidade, o espaço e o tempo vieram para a existência; literalmente nada (N.T.: i.e., em termos físicos) existia antes da singularidade, então, se o Universo realmente tiver se originado a partir de tal singularidade, essa seria realmente uma criação ex nihilo (Barrow and Tipler 1986, p. 442) [4]
Como também explica o físico Paul Davies, “o surgimento do universo, como discutido na ciência moderna [...] não é apenas uma questão sobre impor algum tipo de organização [...] a um estado incoerente anterior, mas trata-se literalmente do surgimento de todas as coisas físicas a partir do nada” [5]

Se nós pudéssemos criar uma representação gráfica simples para o evento, seria essa:


Figura 1: Representação geométrica do modelo espaço-tempo. Espaço e tempo começam na singularidade inicial cosmológica. Antes disto, literalmente nada físico existia.

A objeção que alguns ateus apresentam nesse ponto é a sugestão da singularidade como uma espécie de bolinha superdensa que estava descansando desde a eternidade e que de repente explodiu, há certo um tempo finito. Mas a objeção é falsa. A singularidade é o PONTO inicial do Universo (e não uma espécie de linha reta que vai descendo eternamente na figura acima). Nesse modelo, a sugestão da criação fisicamente ex nihilo é feita no sentido de que antes desse ponto surgir absolutamente nada em termos físicos (de matéria, energia, espaço e tempo) existia. A nossa verdadeira questão é o porquê da singularidade – o “espaço-tempo” -começou a existir.

Então temos a nossa primeira questão: um teísta qualquer está em um estado de irracionalidade ao aceitar a teoria cosmológica padrão, que é a base de (p2)? Qual obrigação epistêmica ele está infringindo ao acreditar nesse modelo físico? É difícil dizer qual. Parece perfeitamente sensível e aceitável para qualquer pessoa acreditar no Big Bang na falta de objeções cogentes contra ele, não mais do que é aceitável para alguém acreditar na Teoria da Evolução ou na própria Teoria da Física Quântica.

Talvez a objeção do neo-ateu aqui será citar a existência de outros modelos. Logo, o teísta (ou qualquer outro que aceite o modelo Friedmann–Lemaître) é irracional ao aceitar essa teoria. Novamente, essa objeção falha. Todas essas teorias são teorias científicas e precisam ser falseadas EMPIRICAMENTE. Não há nenhuma evidência empírica cogente para as outras teorias (como a Teoria M, das supercordas, infinitos universos em expansão, etc). Na verdade, se alguém aqui está injustificado em alguma crença é quem postula milhares de outras entidades para as quais não há nenhuma comprovação empírica, de acordo com o princípio da explicação mais simples (já discutido acima). É verdade que no futuro algumas dessas teorias pode se provar correta; assim como no futuro fósseis que indiquem um designer inteligente podem ser descobertos. Nem por isso significa que no momento t atual alguém está em estado de irracionalidade ao aceitar o modelo do Big Bang ou a Teoria da Evolução padrão sem nenhum designer.

Então, se o neo-ateu quiser derrubar o teísta nesse ponto, ele deverá demonstrar que o teísta é irracional ao aceitar o modelo como é descrito acima.

Então esse é a o quadro geral dentro do qual temos que conversar. E a partir daí surge a objeção baseada na física quântica.

4. Pode algo vir do nada? – A discussão


4.1. Ontologizando o nada:

Se não existia nada físico, então ou (1) o Universo emergiu de alguma substância não-física, de natureza ontológica, que existia naquele estado ou (2) o Universo surgiu a partir de absolutamente nada.
E é ESSE o maior erro dos neo-ateus nesse debate. Sendo destreinados em filosofia, neo-ateus e até mesmo alguns cientistas famosos começam a falar do ‘nada’ de uma forma ontológica (que é filosoficamente tola). O nada não é material e o nada também não é imaterial; o nada simplesmente não é. O nada absoluto é justamente aquilo que não tem NENHUM predicado positivo. Justamente por isso ele não é algo ontológico.

O nada não é o ser de nenhuma forma; ele é simplesmente o não-ser. Muitas vezes neo-ateus surgem falando que “o Universo surgiu do nada” sugerindo que ele surgiu do vácuo quântico. O que eles falham em perceber é que o vácuo quântico é um ente cheio de características; ele não é um ‘nada’, mas um mar de energia flutuante dotada de uma rica estrutura e sujeita a leis físicas de diversas espécies. O próprio fato do vácuo quântico ser estudado pela Ciência demonstra que ele tem um caráter ontológico, pois assim como a Ciência não pode estudar o ‘não-cachorro’ ou ‘não-humano’, ela não pode estudar o ‘não-ser’. Nesse caso, absolutamente coisa alguma positiva poderia se falar dele. Só poderíamos negar as suas características. Essa é a verdadeira definição do nada.

No momento em que neo-ateus começam a dizer que, por exemplo, (a la Stephen Hawking) a lei da gravidade criou o Universo, ele está admitindo ‘(1) alguma substância ontológica é o estado do qual emergiu o Universo’, só discordando qual é a natureza dessa substância. Igualar “Lei da Gravidade” ou “Vácuo Quântico” com “Nada” seria simplesmente uma tolice.

Explicado esse erro, e entendido o que é o nada, vamos para três argumentos contra a criação a partir do nada.

4.2. Os Argumentos Dedutivos contra a criação a partir do nada:

Tendo isso em mente, é fácil montar um argumento dedutivo contra a criação a partir do nada. Basta analisar a propriedade básica do ‘nada’ – o não-ser em absoluto – e montar a argumentação.
O primeiro problema que surge é que se o nada criou algo, então ele tem pelo menos uma propriedade positiva: a de ser a substância que deu origem a um outro estado de coisas. Mas se ele deu origem, é a explicação ou razão, a um estado de coisas seguinte então ele tem pelo menos uma característica, que é justamente essa. Nesse caso, ele seria um ser, algo ontológico, e não seria o nada, que é justamente aquilo que nega qualquer predicado do ser. Então qualquer coisa que seja a explicação ou razão para algo posterior não pode ser o nada, sob pena de cairmos em auto-contradição e absurdo com a sua própria definição.

O segundo problema é o seguinte: se não existia nenhuma entidade ontológica, e o nada não criou o Universo, significa que o PRÓPRIO Universo, que não existia, é o responsável por sua passagem à existência. Mas essa visão é logicamente incoerente. Para o Universo ser sua causa, ele deve ser ou logicamente ou temporalmente anterior a si mesmo. Mas obviamente é impossível que algo seja anterior a si mesmo, pois nesse caso ele já existiria. Logo, a auto-criação é impossível.

Demonstrado isso, o absurdo de falar do nada criador fica explícito.

4.3. O Argumento Indutivo contra a criação a partir do nada:


Digamos que mesmo assim alguém não aceite os argumentos acima; ele simplesmente não se sente compelido a rejeitar a criação a partir do nada a partir da forma dedutiva explicada acima.

Ainda assim, poderíamos falar de um argumento indutivo contra a criação a partir do nada. Como formamos nossas conclusões para julgar a probabilidade da ocorrência de outros eventos? Nas conclusões que se baseiam numa experiência infalível, espera-se o evento com o máximo grau de segurança e considera-se a experiência passada uma prova completa da existência futura deste evento. Em outros casos, procede com mais precaução; pesamos as experiências contrárias; consideramos qual dos lados está apoiado por maior número de experiências; e é para este lado que nos inclinamos, e quando finalmente estabelece seu juízo a evidência não ultrapassa o que denominamos propriamente de probabilidade.

Toda probabilidade, portanto, supõe uma oposição de experiências e de observações, na qual um dos lados sobrepuja o outro e produz um grau de evidência proporcional à superioridade. Cem casos ou experiências de um lado e cinquenta do outro fornecem uma expectativa duvidosa de qualquer evento; contudo, cem experiências uniformes, com apenas uma que é contraditória, engendram racionalmente um grau bastante alto de segurança. Em todos os casos, devemos contrabalançar as experiências opostas, se são opostas, e subtrair os números menores dos maiores a fim de conhecer a força exata da evidência superior.

Uma pessoa sábia, portanto, julga a probabilidade pela experiência do evento. E toda coisa que passou a existir, pela observação humana, veio de um estado de coisas S que possui predicados positivos em si e de caráter ontológico para um outro estado de coisas S*  com predicados positivos em si e de caráter ontológico, observando-se sempre uma linearidade entre ser e ser. Toda experiência uniforme da humanidade constitui uma prova INTEIRA contra o surgimento de algo a partir de algo constituído pelo absolutamente não-ser. E um  homem sábio deve acreditar, assim, que o mesmo deve ter acontecido com o evento “surgimento do Universo”. Dessa forma, aquele que considera absurda a criação a partir do nada tem uma justificativa racional para tanto.

A primeira objeção é de que nós só observamos isso no mundo físico, por isso não podemos expandi-la para o não-físico. Mas essa objeção é falsa. A inferência se faz sobre a própria estrutura do ser, não sobre o fato do estado ser material ou não. Esse princípio funda-se em um raciocínio metafisico, não fisicamente.

Outra objeção é que as coisas não passam a existir, mas meramente se transformam. Mas essa objeção, na verdade, fortalece o raciocínio, não o enfraquece. Em primeiro lugar, é errado dizer que nada começa a existir; eu iniciei a existir há um determinado tempo, minhas palavras nesse post iniciaram a existir, pois não existiram desde sempre, e esse site também iniciou a existir. Pela Lei de Leibniz, temos as identidade dos indiscerníveis; desde que a essência de (1), (2) e (3) é diferente do que existia antes, (1), (2) e (3) é algo novo que passou a existir. Na verdade, o que o objetor quer dizer que as coisas que iniciaram a existir são formadas por um algo que lhe deu continuidade, o que não faz, filosoficamente, elas serem o mesmo; e esse é exatamente o ponto do raciocínio feito aqui. Há uma continuidade ontológica de estados com predicados positivos para estados com predicados positivos sempre dando origem a discerníveis que não existiam no estado um. E devemos acreditar que o mesmo ocorreu pelo Universo, seguindo as regras da verdadeira filosofia.

4.4. Física Quântica – o que ela mostra e o que ela NÃO mostra:


Mas a física quântica não nos ensina que as coisas podem surgir do nada? Como proceder, nesse caso?

A alegação é de que a física quântica nos mostra uma exceção para a afirmação de que algo não pode surgir sem causa a partir do nada, uma vez que no nível sub-atômico, as chamadas “partículas virtuais” surgem para a existência a partir do nada. E o mesmo poderia acontecer com o surgimento do Universo a partir do vácuo quântico.

Sem falar na discussão se essas partículas virtuais realmente existem [6], essa objeção é baseada em uma confusão filosófica. Como eu já expliquei na seção 4.1., nós não podemos atribuir o estado de “surgir do nada” nesses casos. O vácuo quântico não é um ‘nada’, mas um mar de energia estruturado e sujeito às leis da física. Dizer que as partículas virtuais surgem do nada no meio do Universo é simplesmente bizarro, pois se elas surgem dentro do Universo elas surgem dentro do ser. O que o objetor quer dizer, na verdade, deveria ser que essas partículas surgem sem uma causa específica ou ‘aleatoriamente’, mas não a partir do “nada”.

Mas na verdade o que existe na Física Quântica é o princípio do Indeterminismo, pelo qual não conseguimos saber ou prever de forma “fixa” os comportamentos das partículas, pela alteração do observador. E o fato dos seres humanos não terem uma barreira epistemológica para encontrar uma causa para um determinado evento não significa que ele tenha surgido aleatoriamente.

O que existe a partir daí são interpretações indeterministas ou deterministas desses dados. Vários físicos não estão insatisfeitos com a interpretação indeterministas de Copenhagen e estão utilizando teorias deterministas como as de David Bohm. Na verdade, a maior parte das interpretações disponíveis do formalismo matemático da mecânica quântica hoje é totalmente determinista. [7] E cosmologistas quânticos tem uma aversão especial para a versão de Copenhagen, uma vez que essa interpretação, no contexto cosmológico, iria requer um observador ultramundano para realizar o colapso da função onda do universo. [8]

Utilizando um paralelo: tanto Locke e Berkeley tinham interpretações da realidade empírica da mesma forma, mas Berkeley excluía a matéria, deixando apenas o funcionamento na mão do observador (aquele que “percebe”). Mas isso não demonstrava que a matéria não existia. São apenas interpretações diferentes que cobrem o mesmo campo.

Em segundo lugar, é preciso ter de forma clara em mente qual o significado utilizado de causa – que, assim como o termo ‘nada’, gera imensas confusões. Se utilizarmos a definição encontrada em 2., esses eventos não tem uma probabilidade intrínseca calculável, mas tem uma causa. Digamos que eu estimule uma partícula  para ocorrer um decaimento subatômico. É somente na presença do estado de coisas S ‘partícula existente sendo estimulada’ na qual emerge S* ‘decaimento atômico’. É até risível dizer que experimentos feitos em laboratório são eventos sem explicação, uma vez que eles pressupõe certas condições que dão origem para outras. Eles podem ser poucos prováveis ou difíceis de se calcular a probabilidade de acontecer, mas isso não dá a conclusão que não tem causa… justamente pelo contrário, pois eles são experimentáveis e inteligíveis para a mente humana.

Dessa forma, é errado dizer que a física quântica cria uma exceção para (p1). E mesmo nas interpretações indeterministas, as partículas não surgem a partir do ‘nada’. Elas surgem de forma espontânea, sendo difícil calcular sua probabilidade por isso, a partir da energia contida no vácuo subatômico, que constituem a causa de sua origem. E o mesmo vale para qualquer teoria sobre “vácuo quântico” e início do Universo.

4.5. O Argumento Ad Absurdum:


Também podemos criar um reductio ad absurdum contra a idéia sugerida acima. O nada não tem nenhuma propriedade positiva nem restrições de alguma forma. Se o nada pode positivamente gerar algo, então ele poderia gerar tudo, sem limites e sem nenhuma probabilidade objetiva ligada a ele. Mas então por que justo um Universo? Por que não dragões, por que não uma geladeira, por que não uma televisão, porque não outro tipo de Universo mais simples, sem tanto regularidade e sem capacidade para vida? Por que elétrons agindo ano após anos da mesma forma e não elétrons que viram prótons que viram nêutrons que somem para sempre e etc? Você simplesmente não pode colocar restrições ao nada, pois neste caso ele já seria algum tipo de entidade. Se nós negarmos o princípio explicativo enunciando na introdução, então não há nenhuma justificativa para dizer que o nada pode criar algo e criaria isso mas não criaria outras coisas muito mais simples.

E se eu acusar alguém de irracional por não compartilhar minha crença que um imenso e extremamente complexo Universo, cuidadosamente calibrado para sua própria subsistência e para a existência de vida, surgiu absolutamente por nada, do nada e pelo nada, sendo que qualquer tipo de entidade poderia ter surgido nessas condições, eu deveria ter honestidade e me voltar a mim mesmo, perguntando quem é realmente o irracional entre nós.

4.6. O Argumento Cético Final:


Um dos problemas de alguns “céticos” é aceitarem algumas limitações mas se recusarem a levar essas limitações até as últimas consequências. O exemplo da ‘Física Quântica’ e do ‘nada’ podem ser um bom exemplo disso. O exemplo a seguir foi sugerido, em essência, por Alexander Pruss.[9]

Comece supondo que realmente algo pode surgir a partir do nada ou pode surgir sem causa, como o neo-ateu alega (chame isso de crença ‘FQ’). Nesse caso, não poderíamos fazer qualquer julgamento probabilístico sobre esses eventos ocorrerem ou não; afinal, se eles não surgem dentro de um estado anterior, sendo algo como uma causa sui, eles não tem nenhum tipo de restrição e acontecem aleatoriamente. A probabilidade está ligada justamente ao conceito oposto a esse, sendo impossível aplicá-la nesse caso.

E não podemos esquecer algo. Para o naturalista, nossas faculdades cognitivas (chama elas de ‘R’) seriam, possivelmente, algo como um evento neurofisiológico que opera nos termos da ontologia das coisas físicas. Mas dentro dessa estrutura neurofisiológica, TAMBÉM há um nível subatômico, nas quais as coisas podem acontecer sem razão e sem serem ligadas a nenhum estado anterior.

A partir daí, um novo cenário de ceticismo novo se torna completamente possível: se é possível que algo aconteça sem nenhuma razão e esse tipo de mecanismo está operando no seu cérebro, então seus estados de percepção gerados pelas suas faculdades cognitivas podem estar ocorrendo sem nenhum razão e sem causas anteriores. E você, como vimos antes, não pode fazer um julgamento sobre a probabilidade disso acontecer ou não. Dessa forma, você não pode confiar nas suas faculdades cognitivas,pois nunca terá capacidade de fazer um julgamento probabilístico para saber se é ou não o caso de elas estarem operando deterministicamente. Sempre poderá ser o caso de você ter surgido agora, a partir do nada, ou de suas impressões e raciocínios simplesmente estarem surgindo sem nenhum vínculo com a realidade externa.

Se você aceita a crença FQ, então você tem um motivo (ou um ‘defeater’) para não acreditar em R (suas faculdades cognitivas, que produzem o seu conhecimento). E esse defeater não pode ser derrotado de maneira alguma; qualquer contra-defeater para o defeater original teria que tomar a forma de um argumento, que necessita de R, o que seria pragmaticamente circular.

Mas qualquer um que tenha um defeater para R também tem um defeater para qualquer crença que tenha sido produzida por essas faculdades cognitivas – incluindo aí a própria crença que FQ. Então qualquer um que aceite FQ acaba gerando um defeater para si mesmo; portanto, essa posição acaba sendo auto-refutável da mesma forma que o demônio cartesiano e não pode ser racionalmente aceita. Se nós quisermos levar o ceticismo até o final, temos que aceitar essa conclusão; e a conclusão não nos permite aceitar a informação original. Portanto, é absolutamente irracional tomar essa posição.

O argumento pode ser construído dessa forma:
  • 1. Estados ontológicos novos podem surgir a partir do nada ou sem explicação (chame isso de ‘FQ’);
  • 2. Se estados novos podem surgir como em FQ, então não há como fazer um julgamento objetivo de probabilidade de eventos;
  • 3. Se estados novos podem surgir a partir do nada ou sem explicação (FQ), então meus estados que emergem da minha faculdades cognitivas (R) também podem surgir a partir do nada ou sem explicação;
  • 4. Se não há como fazer um julgamento sobre a confiabilidade de R dado ‘FQ’, então eu tenho um defeater para R;
  • 5. Esse é um defeater que não pode ser derrotado de maneira alguma.
  • 6. Alguém que tenha um defeater para R também tem um defeater para qualquer crença que R tenha produzido, incluindo FQ;
Logo,
  • 7. A própria crença FQ tem um defeater e não pode ser racionalmente aceita.
Então a crença enunciada pelo neo-ateu para derrotar o Argumento Cosmológico não só não possui justificativa, como leva a absurdos e derrota a si mesma no fim das contas.

5. Conclusão:

Em resumo, temos que considerar os seguintes pontos:
  • (1) Se o neo-ateu quiser demonstrar que o teísta está injustificado ao aceitar as premissas (p1) e (p2) do Argumento Cosmológico, ele deverá demonstrar o PORQUÊ do teísta ser irracional ao aceitar (p1) e (p2);
  • (2) Se ele argumentar que o nada pode gerar algo (como o “vácuo quântico” poderia), então está em auto-contradição, pois estará ontologizando o nada, que é justamente a falta de ser;
  • (3) Se ele argumentar que algo pode emergir do nada, então está em auto-contradição, pois essa própria coisa seria a condição explanatória de si mesma, o que demandaria que ela fosse logicamente ou temporalmente anterior a si mesma (!);
  • (4) Se ele argumentar que a Física Quântica mostra que as coisas surgem do nada, isso é mentira, pois não surgem do não-ser e sim do ‘ser’ dentro do Universo;
  • (5) Se ele argumentar que a Física Quântica mostra que as coisas surgem sem causa, isso também é mentira, pois elas surgem dentro de um certo estado de coisas anterior necessário, sendo difícil apenas calcular a probabilidade de sua ocorrência posterior a ela pela influência do observador;
  • (6) Se algo pode surgir do nada, então é simplesmente inexplicável porque tudo e qualquer coisa não surgiram do nada e quem não acredita que aconteceu isso em um evento passado qualquer está sendo irracional;
  • (7) Quem acredita que as coisas acaba tendo uma forma de refutar sua própria capacidade de raciocínio, o que inclui… a própria crença de que as coisas surgem do nada;

    Feito isso, a objeção quântica ao estará devidamente neutralizada.

__________________________________________
Referências:
  1. CRAIG, William Lane; MORELAND, James P; (editores) The Blackwell Companion to Natural Theology, Ed. Wiley-Blackwell
  2. Plantinga, God, Freedom, and Evil, p. 2.
  3. Para uma maior discussão desse argumento, sugiro continuar lendo o blog nos próximos tempos.
  4. Barrow, J. D. and Tipler, F. (1986) The Anthropic Cosmological Principle. Oxford: Clarendon Press.
  5. “In the Beginning: In Conversation with Paul Davies and Philip Adams” (17 de Janeiro de 2002)
  6. Ver Robert Weingard & Gerrit Smith (1982). Spin and Space
  7. Veja CRAIG, William Lane; MORELAND, James P; (editores) The Blackwell Companion to Natural Theology, Ed. Wiley-Blackwell, pg. 183
  8. Veja novamente CRAIG, William Lane; MORELAND, James P; (editores) The Blackwell Companion to Natural Theology, Ed. Wiley-Blackwell, pg. 183
  9. Veja CRAIG, William Lane; MORELAND, James P; (editores) The Blackwell Companion to Natural Theology, Ed. Wiley-Blackwell, pg. 29